A produção é uma cinebiografia política focada na ascensão de Jair Bolsonaro, apresentada em formato dramático e de thriller político. A própria descrição do projeto aponta para uma narrativa construída em torno de sua trajetória política, campanha eleitoral e acontecimentos ligados ao período eleitoral brasileiro.
Existe uma diferença importante entre um filme que possui personagens religiosos e uma obra cujo propósito é comunicar valores cristãos. Filmes cristãos geralmente apresentam temas como redenção, transformação espiritual, perdão, graça ou conflitos de fé. Em Dark Horse, o eixo da narrativa não é o Evangelho; é a política.
O problema surge quando determinados setores passam a tratar qualquer produto que utilize linguagem religiosa como se automaticamente pertencesse ao campo cristão. Isso cria uma confusão perigosa: transforma símbolos de fé em ferramentas de identidade política.
O cristianismo não foi criado para funcionar como plataforma eleitoral. O Evangelho não nasceu para servir candidatos, partidos ou projetos de poder.
Talvez por isso o paralelo com a série O Conto da Aia seja inevitável.
Em O Conto da Aia, os comandantes da República de Gilead não são homens de fé genuína; são homens de poder que aprenderam a usar a linguagem religiosa como instrumento de autoridade. Eles selecionam partes da Escritura, transformam fé em aparato político e utilizam o discurso espiritual para legitimar projetos pessoais.
O ponto mais perturbador daquela narrativa nunca foi a religião em si. Foi sua instrumentalização.
A semelhança não está em afirmar que políticos brasileiros sejam equivalentes aos personagens de Gilead. O paralelo está em outro lugar: no mecanismo.
O mecanismo é simples, primeiro, a fé deixa de ser uma convicção espiritual; depois, torna-se identidade de grupo; por fim, converte-se em ferramenta política.
Quando isso acontece, o discurso religioso começa a servir menos para apontar para Cristo e mais para produzir lealdade.
Cristãos historicamente apoiaram candidatos dos mais variados espectros políticos. Isso não é novidade. O problema aparece quando a fronteira desaparece e o político passa a ocupar um lugar quase messiânico.
Quando portais cristãos promovem um filme político como se fosse cinema cristão, a pergunta que fica é: estão divulgando uma obra de fé ou fortalecendo uma narrativa ideológica?
Porque existe uma diferença enorme entre assistir a um filme sobre política e receber esse filme como uma extensão do próprio Evangelho.
E talvez essa seja a questão principal: Cristo nunca pediu seguidores para transformar políticos em salvadores.
Ele já ocupou esse lugar. Concorda ou discorda deixe o seu comentário

Nenhum comentário:
Postar um comentário